... Para quem achava que "Infinito Vs. Naruto" era o pior que nosso herói azul poderia fazer...
Esta é a "fase Odisséia" (tipo a 2ª temporada, como fala o Valberto). A fase "campanha Supers Aracaju". Com pouco menos de 1 ano de carreira, Infinito foi para o RIo de Janeiro e estudou no Instituto (esqueci o nome, mals Gustavo) e tentou ser herói de equipe, e se frustrou muito com a impassividade de seus colegas e de seus tutores.
Janeiro de 2006 um empresário chamado Christian começou a "colecionar" mutantes. Ele tinha bons motivos e boas invenções. Dentre os jovens que recolheu, estava Infinito.
- Na polícia carioca, ou você se corrompe, ou se omite, ou vai para a Guerra. Eu escolhi a Guerra.
Infinito também. Mas seus patronos escolheram a omissão.
Já vi o tipo antes. Filho de mãe solteira, educação de coroinha mesmo sem ir à igreja todo o domingo, aposto que nem fala palavrão com naturalidade. De tanto assistir televisão, quando ele pisa num espinho o máximo que sai é um "que droga". O que mais? Viveu em colégio particular de classe média alta muito provavelmente. Eu chutaria que ele tem uns 15 anos... A imprensa faz parecer ter mais, mas eu não me surpreenderia se tivesse 10, 12. Mas acho que entre 14 e 15 é o mais próximo.
Aposto que nunca fumou nem bebeu. Não é do tipo influenciável por colegas. Merece uma estrelinha...
Só tem uma coisinha a notar nesse garoto. Em cada mão dele está o poder destrutivo de uma bazuca. E ao redor dele, uma aura azul que apara tiros de bazucas. E quando salta, desafia a gravidade e voa a uns bons
É... O mundo não é mais o mesmo. Exceto no morro.
Faz quase dez anos desde a morte do Aspira Neto. Seu amigo e colega, o Matias, está aqui comigo prestando homenagens. Em idos de 1997 eu cheguei ao ponto crítico de qualquer um que entra no BOPE passa... Eu cansei. Não conseguia mais encarar as mães que perdiam seus filhos. Não podia pensar na minha família sabendo que a qualquer momento eles perderiam o pai. Eu queria sair... Eu PODERIA sair... Ninguém me condenaria. Não depois de tudo o que eu fiz para a corporação...
... Mas EU me condenaria.
Se eu tivesse que sair, precisaria de um sucessor. Um sucessor digno.
Na turma de 1997 eu sabia que iria encontrar meu substituto. Ele deveria ter hombridade, inteligência e coração do BOPE. Logo, limitei minhas escolhas a dois... O Neto e o Matias.
Se eu pudesse juntar os dois em um homem só, seria perfeito. O Neto nasceu com justiça no sangue, mas não parecia esperto. Já o Matias, aluno de faculdade, era muito inteligente e centrado. Mas ele tinha seus próprios planos. Queria fazer justiça como advogado. Não tinha o coração.
Ao menos eu achava isso.
O Matias tinha amigos que se envolviam com os chefes do morro. Eles montaram uma emboscada para ele... O Neto percebeu, e salvou a vida de seu amigo, à custa de sua própria. Estava errado. O Neto tinha inteligência.
Eu e o Matias subimos o morro. Fomos atrás do "baiano", o filho da puta que matou o Neto. Matias não tremulou. Errei mais uma vez: o Matias tinha sim coração no BOPE.
Eu fui promovido a Major. O Matias galgou a hierarquia para Segundo Tenente, Primeiro tenente, e semana passada, Capitão do BOPE. Eu não subo mais o morro, mas seguro o rojão da corporação num campo mais difícil que o morro: A política.
Sempre tem alguma merda que os poderosos fazem e o BOPE precisa consertar. É rebelião simultânea nos presídios, figurão internacional na cidade, roubo de armas no exército, e essas coisas. Mas eu fiz pelo Matias o que nossos oficiais superiores não fizeram por mim. Sempre que algum deles dizia "isso vai dar merda", eu tratava de ouvir.
Quando o Bope sobe o morro ele não vai atrás de marginal. Vai atrás de armas. Vai tirar das mãos dos criminosos seu instrumento de trabalho. A vida no morro é barata. Se um morre, sempre tem alguém pronto para pegar a arma do bandido e seguir de onde o primeiro parou. Nossa melhor chance é tirar as armas de circulação.
O problema é que sempre os bandidos têm armas. As que nós apreendemos muitas vezes voltam para as mãos dos marginais por causa de policiais corruptos ou de ataques a delegacias e galpões de armamentos. Isso me deixava picado na época que eu quem subia o morro. Outra coisa é que nossos recursos e efetivos eram bem mais limitados que os dos traficantes. Nós tínhamos ONGs, Anistia Internacional e opinião pública no nosso pescoço a toda a hora. O Beira-mar era íntimo das Farc, e a droga dava grana o suficiente para eles se armarem.
Era uma questão de tempo para eles terem uma arma que bala alguma pudesse parar. Doi Jin. Maré vermelha.
Se a vida era barata no Rio de Janeiro, imagine num país cheio de desertos com um terço da população mundial. A China poderia dominar o mundo, se quisesse, independente de tecnologia. Estamos em desvantagem de 3 para 1 contra esse único país. E se os "super-humanos" pipocam em todo o canto, com certeza iriam pipocar lá... E com alguns dólares do narcotráfico, era coisa de quem achasse um primeiro.
Maré Vermelha tinha
Aquilo não acontecia desde 78, quando fundaram o BOPE.
A imprensa caiu
O Christian não deixou, claro. O pirralho queria subir o morro! Queria levar seus amigos mutantes para “fazer a diferença”. Mas não era esse o objetivo do Christian. Ele sabia que o Maré Vermelha era casca grossa demais para qualquer um, e ele não queria formar uma "Liga da Justiça".
Bateram boca. Mas só isso ele podia fazer com o garoto. Quando se desafia a gravidade, não se tem muitos patrões. Ele vestiu a fantasia mais chamativa que eu já vi, ainda mais pelo fato de estar brilhando o tempo inteiro, e se meteu a vir para o Vidigal. Sozinho.
A sorte dele é que o Caso Maré Vermelha era do BOPE. A gente ia subir no morro, no meio da guerra dos Comandos. Nosso objetivo era deter o chinês. Qualquer outro alvo era secundário. Como falei, o BOPE não sobe o morro atrás de bandido: Sobe atrás de armas. Aquele puto oriental não falava português, não tinha vida social. Só sabia matar e destruir. Ele era uma ARMA.
Matias me informou tudo o que conseguiu. Ele subiu no Alemão um dia antes, e foi atrás dos bandidos. Levou consigo a 12, o saco e a vassoura, e conseguiu dos bandidos uma informação... Uma arma.
- Falei que ce era esperto, Matias! - cumprimentei. - O vermelhinho tá fodido agora. Vamo lá pegar ele.
- Cê vai com a gente, major?
Eu TINHA que ir. Os políticos não iam deixar me promoverem tão fácil, e talvez me forçassem a aposentar mais cedo. Eu até agradeço, ser novo ainda para acompanhar meu filho e minha esposa. Fiz um sucessor digno, e fiz meu trabalho no BOPE. Aquela última subida era para ver, com meus próprios olhos, como seria a Guerra dalí para frente.
A PM já tinha fechado a rua. O Caveirão ainda estava no caminho, mas tivemos que ir ao arsenal pegar um presente dos americanos. Os fuzis e as metralhadoras não iam bastar conosco agora. Trocamos nossas pistolas Taurus por uma geringonça.
- Todo mundo para traz! - gritava Matias, já no comando. - Não vai subir ninguém! Não vai subir ninguém.
- Eu discordo, policial! - falou o moleque.
Claro que a Polícia comum virou e atirou. Não ser como a Ordinária ainda não matou metade da cidade com balas perdidas. Os Caveiras, mais sabiamente, foram para cobertura e procuraram ponto de mira. Se fosse um ataque, os PMs tinham se matado por um único alvo, enquanto quem tinha farda preta já começaria a dominar a situação.
Ele chegou voando. Brilhava como um balão pegando fogo, e se limitou a tampar os ouvidos com os tiros dos policiais. Dava para ver as balas ricochetear no moleque, e cair cor-de-brasa com o atrito no campo de força dele. Tudo que precisávamos: outro sujeitinho que balas não param.
- Cessar fogo, caralho! - urra o Matias diante da impassividade do moleque. - Para de atirar!
- Capitão, Me diz onde é que tá o Maré Vermelha. - falou o moleque todo convencido. - Deixa que eu pego ele!
- É MAJOR, pirralho! É MAJOR no comando aqui! - urrei. - E cê não vai subir não! Cê tá preso por vigilantismo!
- Vigilantismo é o uso de bando, armas brancas ou armas de fogo para formar milícia urbana. Eu estou sozinho, e não tenho arma alguma na mão. Cês vão precisar atualizar a lei agora, chefe.
- Matias, joga o pirralho no camburão! Já mandei!
O moleque insolente virou os olhos e deu com os ombros para mim! fiquei possesso, e quase que atirava de lá mesmo.
- Valeu se não vão ajudar... - falou ele. - Tudo bem... Não deve ser difícil achar um monstro vermelho de
Ele subiu o morro e a gente não pode fazer nada. Foi como um carro à toda, em linha reta pela noite, sem tocar no chão. Cinco segundos e era só uma estrela a mais no céu, embora se movia.
- Cap. Matias... Vamos subir. - falei enfim.
O moleque foi novamente recebido a tiros. Desta vez dos traficantes. Ele descia temerário e contra-atacava. E ele era bem versátil... Atirava um ou dois raios num bandido, e ele tava todo alquebrado. Mas se precisava destruir um carro ou detonar um muro, conseguia com igual facilidade.
Tínhamos pelo rádio o aviso de onde estava o Maré Vermelha. Mas ao contrário do moleque de azul e branco, a gente tinha que andar, e conquistar na bala cada metro de terreno. De tempos em tempos víamos o céu se iluminar com o guri, e ouvíamos barulho de granadas e outras explosões que não consigo identificar vindo de nosso último destino.
Mas aí, a arrogância do moleque acabou. O Maré vermelha montou uma tocaia. O molequinho voando displicentemente enquanto ele se camuflava num prédio de tijolos, e lá de cima salta sobre o guri. Chega a ser atingido uma vez, mas o raio azul passa atravessado sem detê-lo. Logo, era uma aberração de 300 quilos sobre um pirralho de uns 50.
Sabe por que as pessoas se afogam? Porque no desespero se debatem com a água. A água cansa a gente mais do que imaginam. Não tem força que funcione contra a água, e não havia como o pirralho suplantar a força do monstro. Ele o encobriu e o esmagava. Logo, iria se afogar naquele monstro ou ser esmagado pela pressão constante. O Matias foi o último a ver o Infinito quando o lodo rubro o encobriu.
- Tomando a área! Senta o dedo nessa porra! - gritou o capitão.
A gente massacrou os bandidos que davam cobertura ou que atacavam em vão o Maré Vermelha. Precisávamos chegar perto dos dois para atacar. O Matias tinha o brilho da vingança por ter sido sovado com seu time antes. E eu fui junto.
- Cobertura! Cobertura! - Urrei. Os Caveiras fizeram certinho seu trabalho. Dominaram o perímetro. - Os Tazers, Matias!
A geringonça era uma arma de defesa pessoal, ou Arma de Electrochoque, que o BOPE jamais pensou
Ele ficou sólido. Ele se levantou enfuriecido, e o pessoal passou a atirar nele. Agora sim o filho da puta sangrava, mas ainda assim continuava de pé. O choque não era o suficiente. As balas não eram o suficiente.
O Infinito se livrou do ataque, mas permaneceu debaixo do monstro. O pirralho se posicionava procurando ums fios de gato de energia na região, e resolveu brincar de "sinuca" com o chinês.
- LIBERAR O INFINITO! - gritou ele.
Eu fiquei temporariamente surdo, e Matias ficou ofuscado. Uma bolha de energia azul explodiu, com o moleque no centro. O Monstro era casca grossa, mas se queimou bonito, e foi projetado para trás por cinco metros. Caiu exatamente nos fios do Gato de energia. Se enrolou todo e começou a fritar com a corrente elétrica inteira do Vidigal. Ele não tinha mais qualquer controle de seus movimentos, e o fedor de ozônio e carne fritos era enauseante. Finalmente, ele parou de se debater.
Maré Vermelha estava morto. Os Caveiras comemoravam, mas o pirralho não. Eu não me surpreenderia se fosse a primeira vida tirada pelo guri... Nós seguimos a trilha de destruição que ele deixou... Todo mundo lascado, mas vivo. Aquilo não era uma opção com Maré Vermelha. Mas é quando se mata pela primeira vez que “aspiras” viram Caveiras. Aquele era o momento... Ou ele crescia, ou se desmantelava de vez.
- Capitão... - fala ele com peso na voz. - Eu vou subir o morro até o fim agora.
Matias foi para perto do pirralho.
- Vou pela rua principal. Vou fazer muito barulho e escarcéu. Vou atrair as balas para meu lado. - continuou. - Você e seus homens peguem as paralelas e ferrem todos que avistarem. A gente se encontra no topo.
"Ferrem"? Eu ri. Era quase um palavrão!
Mas o que eu posso fazer? Pegar traficantes olhando pro lado oposto ao seu, descarregando os pentes de munição num alvo que balas não podiam parar era quase fácil demais. Eu peguei metade dos homens e fui subindo pelas paralelas da direita, enquanto o Matias subia pela esquerda. No centro, o Infinito explodia carros e derrubava marginais com raios de luz azul.
Usávamos armas de baixo calibre. Nossos alvos eram feridos, e não mortos. Não porque ficamos "bonzinhos" como o guri de capa branca, mas porque em primeiro lugar, um bandido morto era uma arma a menos atirando na gente, mas um bandido ferido eram DUAS armas a menos: A dele e a do seu colega que volta para ajudar ele. Ninguém volta por um morto. Ah, e claro, a Anistia Internacional pede nossa pele quando matamos um bandido, mas se só aleijamos ele um pouco, ninguém dá merda alguma.
Estoramos o barracão no topo. Sabem o que encontramos lá dentro, fora os figuras já esperados? O Chefe do Maré Vermelha. Era um chinês nascido no Brasil, gordo com bigodinho de malandro. Trazia uma pasta cheia de outros chineses com poderes. O filho da puta traficava gente como se fosse armas, e queria faturar com o Maré Vermelha no Vidigal.
Eu e o Matias rendemos o cretino no chão. Matias pegou a .12 e apontou pro puto.
- N... Na cara não... Na cara não... - urrou o maldito.
Lembrei na hora do Baiano. Do Neto. Pedir isso pro Matias era pedir a morte.
Matias corre o cano bem pro olho do miserável. Mas seu olho corre para a janela. O pirralho tava lá... Olhando. Calado. Flutuando na janela com braços cruzados, tão “melhor” que a gente que enjoava. Típico de classe média.
- Senhor 0-3... Algema o filha da puta. - falou o Matias.
Aquilo me deixou puto. Eu corri para a janela e encarei o pirralho.
- Ouça aqui, gurizinho metido... - falei pro moleque. - Cê não tem merda nenhuma o que fazer aqui, ouviu? Se não tiver farda preta, se não sobe! NÃO SOBE! Senão a gente te tranca, está ouvindo?
- Fique com sua farda preta, chefe. - falou o moleque. - Só se lembre que EU uso o Branco... E estou de olho!
Lá se foi o Infinito, voando para os céus. Sumindo entre as estrelas.
E o pior é que ele estava certo. Matias passou pelo mesmo que eu dez anos antes. Tinha uma coisinha branca que nos observava, nos julgava, e estava sempre lá. Que nos diferenciava de animais que contrabandeava vidas, seja como mutantes vermelhos da china, seja como farinha da Colômbia. Era nossa consciência. Que se dane Anistia Internacional, ONGs, Direitos Humanos, Políticos e Papas. Nosso verdadeiro vigia éramos nós mesmos. Nós que ainda criança queria fazer o certo.
- Capitão Matias... Cê tá faz dez anos no Bope. - falei. - Se começar a achar que foi tempo demais, não saia sem deixar alguém digno para trás. Ce me deve isso.
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