A Oficina do quartel era o lugar favorito de Rubens Franco. Afro-descendente alto, musculoso, e perspicaz. Um bom soldado aos olhos de seu comandante que entrava agora na oficina onde ele esperou pelo menos uma hora e meia.
- Malária. – fala o coronel Almeida. – Você estava certo, Sargento.
Rubens baixa a cabeça. Pois sabia qual seria a próxima pergunta.
- Eu soube que você fez um semestre de medicina antes de vir para o exército, Franco... mas você diagnosticou malária, no meio da selva, quatro horas antes do cabo Fonseca apresentar o primeiro sintoma.
- E... E os outros?
- Ninguém tinha nada. Só o Fonseca. Estranho perguntar já que você sequer pensou em diagnosticar “magicamente” o resto do batalhão. – fala Almeida, recostando-se na lataria de um gol velho. – Vai dizer que você viu o mosquito picando o Fonseca, deduziu que ele tinha contraído malária, e ordenou uma missão de um mês acabar no quarto dia?
Rubens baixa a cabeça. O coronel levanta-se, vai à porta da garagem, e tranca-a.
- O senhor salvou uma vida, sargento. – fala ele. – Dois dias de caminhada, a vacina preventiva e o soro que levaram não fizeram efeito. Se ele não fosse tratado naquele momento poderia ter seqüelas permanentes ou morrer. Nenhum outro sargento ordenaria um retorno tão cedo. Agora me responda, como é que você fez aquilo.
- Eu... Poderia tentar, senhor, mas o senhor não entenderia...
Almeida se aproxima em silêncio.
- Será que não?
Rubens levanta a cabeça.
- O exército está ciente de... Coisas, sargento Franco. – sussurra ele. – Coisas que não deveriam acontecer, mas acontecem. Se o senhor tem vergonha, ou receio, eu vou falar aqui algo, e você dirá se estou quente ou frio, certo?
- Senhor? O que...
- O senhor tem uma capacidade precognitiva de diagnosticar doenças?
Rubens franco sua, baixa a cabeça.
- Não.
- Vê o futuro?
- Eu vejo pontos fracos.
O coronel recosta-se novamente, agora interessado.
- Como assim “pontos fracos”?
- O senhor lutou boxe na juventude? Deslocou a mandíbula e fraturou o nariz alguma vez?
- Aos dezessete. – ri o coronel. – Eu omiti na ficha médica senão eu nãoteria sido aceito no exército no alistamento. Logo, não pode ter lido em nenhuma das minhas fichas médicas. Como você fez isso, rapaz?
- O senhor já viu uma mulher ... Voluptuosa, senhor? Com todo o respeito, mas... quando falamos com alguém assim, nossa atenção acaba indo discretamente para seus seios. É quase a mesma coisa. Eu... Não consigo parar de pensar que um golpe no seu maxilar o tiraria de combate. E nem precisaria ser um golpe forte.
- Entendo...
- Eu... Não quis dizer que queria agredir o senhor...
- E aconteceu isso com doenças também?
- Doenças... Lutas... Vê a corrente que sustenta o gol?
O coronel olha por cima do ombro. O carro era içado por um conjunto de guinchos e correntes em roldanas.
- O que tem?
- O oitavo elo... De cima para baixo. Se exercerem mais quinhentos quilos, ela vai se partir.
O coronel se aproxima da corrente apontada, e visualiza o oitavo elo. Era idêntico a todos os outros. Com um marca-texto, o coronel marca-a.
- Isso funciona em outros sobre-humanos?
- Outros?
- Há outros, não sabia? Pessoas cuja pele não pode ser perfurada por balas. Pessoas capazes de ficar invisível e controlar outros com o poder da mente.
- Eu... Nunca testei... Nunca encontrei “outros”. – fala o Sargento. – Claro, ouvia histórias do Ultimato e do República, e leio quadrinhos. Mas... Mesmo que eu soubesse como parar um super-homem... Eu sou só humano. Precisaria de sei lá, uma ferramenta para aplicar uma torção ou...
- Deixe que eu consiga as ferramentas, sargento. – fala o Coronel. – Você está convocado para provavelmente a mais importante missão do século que se aproxima. Mas antes... Uma pergunta: porque abandonou o curso de Medicina?
- Eu vejo doenças e fraquezas. Em um hospital, é como a audição de um morcego e viver em uma caixa de som.
2001
O coronel Almeida completava seus trinta anos nas forças armadas. Mas se recusava a se aposentar. Queria ver os resultados de seus louros de seu pupilo.
- Este é Dario Oliveira. – fala o coronel apontando um homenzarrão no extremo oposto do ringue. – Ele possui mutação moderada, grau Beta. Pode erguer oitocentos quilos, o dobro do recorde mundial de halterofilismo. Ele também pratica Jiu-jitsu. O sargento Pratica jiu-jitsu?
- Não... – responde Rubens. – Mas o “grapling” é meu estilo também.
- Podem começar quando quiser.
Dario era um poço de testosterona. Investe com tudo contra Rubens, com mãos para a frente. Rubens espera estar a meio-corpo de distância e mergulha no punho de Dario com o ombro. Concentrava todo o seu peso no braço de seu titânico oponente. Só queria empurrá-lo para traz cinco centímetros. Era o que precisava.
Com um giro, o braço de Dario estava nas suas costas. Com toda a força de seu corpo, Rubens empurra-o. Mesmo sendo vastamente mais forte, era toda a força de Rubens contra uma única junta de Dario, já que sua anatomia ainda era humanóide. Com a chave-de-braço aplicada, o bruto estava rendido.
Tempo para a manobra completa: 3 segundos.
- Estou convencido. – fala o capitão Deodoro. – Dario não era só um brutamontes, ele sabe lutar no chão... Com quem ele aprendeu a lutar? Com o Batman?
- Eu não engulo que ele nunca tenha treinado arte marcial nenhuma... – resmunga o Capitão Leite.
- Bem, pelo que ele me disse... – brinca Almeida. – Ele ficava olhando no espelho e dizendo: “Tenho que aprender a fazer isso assim”...
O coronel ria, e leva uma toalha para Rubens.
- Porque não contou a eles que eu também sou meta-evoluido? – pergunta Rubens tempos depois de estarem sozinhos no ringue. – Não creio que nas atuais condições vá afetar em nada o espanto dessas suas “demonstrações”...
- Uma lição que eu quero que leve para sua vida, sargento franco. – fala o coronel. – Sempre guarde um segredinho sujo. Não mostre todas as suas cartas de primeira.
2003
O nome do bandido era “Ricochete”. Classe de meta-poder: velocista. Mas naquele dia chocava-se com as paredes por um motivo forte. Estava sendo perseguido por um agente do Ultimato. Normalmente, o forçaria a velocidades supersônicas ou o espancaria centenas de vezes... Mas algo estava errado. Sentia vertigens horríveis mesmo a dezenas de metros de seu perseguidor. Ricochete literalmente quicava nas paredes procurando abrir distância.
- Arma sônica perfeita, comando. – fala Rubens pelo rádio. – Recomendo prosseguirem com o projeto Vox.
- Entendido, agente Franco. – fala Coronel Almeida. Seria a quadragésima missão de seu pupilo de ouro. Ricochete era um assassino mercenário que fazia o serviço sujo para algum cartel criminoso de natureza ainda incógnita à ABIN. Rubens quem descobriu que o vilão seria afetado por freqüência hipersônicas inaudíveis. Preparar o garfo sônico levou cinco minutos.
Ricochete estava cercado. Entrou num beco sem saída acidentalmente e já via o agente Rubens, em roupas negras sem nenhuma identificação se aproximando com uma arma em mãos.
O bandoleiro estava para se render quando um som o chama a atenção. Aquele beco tinha uma discreta porta, o acesso da cozinha de um restaurante do outro lado da rua. A cozinheira, uma jovem morena com rede na cabeça e uniforme branco, saia para despejar o lixo no tonel quando é agarrada por Ricochete.
- Para traz, milico! – urra o bandido. – Senão eu vibro meus dedos pela cabeça dessa vadia!
- Droga! Testemunha! – resmunga Almeida, pela câmera instalada na máscara de Rubens. – Aborde com cuidado, Franco!
Rubens se detém. Mantém o garfo sônico ativado. Esperava que ele cambaleasse expondo algo vital que pudesse atingir e o tirar de circulação antes de Ricochete ter a chance de cumprir sua ameaça. Ele observa com cuidado, afina seus sentidos, mas não vê nada. Nenhuma brecha possível para tal manobra.
- ... E DESLIGA A P%$ que está me deixando tonto!
Ricochete agita freneticamente o indicador rente à têmpora da cozinheira. O atrito já feria sua refém sem grandes esforços. Rubens desliga o Garfo.
- Agente Franco, não negocie com ele! – urra desesperado o coronel Almeida.
- Agora, jogue esse bagulho para cá... Devagar!
- Franco, não abandone sua arma! – urrava no comunicador Almeida.
Rubens deixa o garfo no chão lentamente, com olhar frio. Mas junto do garfo, uma bomba de fumaça. Quando o agente chuta sua arma, a esfera cerâmica rola e parte diante do bandido, pulverizando-o.
Ricochete, contudo, já estava com seus sentidos afinados. Desloca-se um metro para a frente, saindo quase instantaneamente da cortina de fumaça.
- Péssima jogada, herói! – urra o bandido. – Agora, você e a vadia morrem!
Rubens olha bem seu adversário, e começa a caminhar na direção dos dois. A cozinheira urrava de pânico, enquanto o coronel largava o microfone e zanzava furioso pela van que aguardava o seu agente.
Do nada, Ricochete cai no chão.
- Não se mova. – fala Rubens, tirando uma ampola de vidro contendo um líquido verde e colocando na pistola. – Eu bombardeei vocês dois com uma neurotoxina letal. O metabolismo acelerado do calhorda o matou
- Você é louco?!? – protesta a cozinheira. – Me envenenou?!?
- Shh... Se você se exaltar mais, a toxina se espalha mais rápido.
Rubens olha com atenção a cozinheira. Seguia com os olhos os movimentos do sistema circulatório sanguíneo para administrar a injeção onde fosse mais rapidamente espalhado o antídoto. Poucos instantes depois, a cozinheira se sentia estafada e tonta. Era o sinal que a antitoxina já fazia efeito. Ela ia ficar bem em uma hora.
...
- Você descumpriu suas ordens! – urra o coronel com o regresso do agente. – Queríamos pegar aquele assassino vivo! É a terceira vez que você se nega a obedecer a ordens explícitas por sua “moral”!
- Eu avaliei todas as possíveis manobras, e esta foi a única em que a inocente não fosse vitimada. – fala o sargento.
- Eu sou seu superior... E te dei uma ORDEM!
- Com todo o respeito, coronel, o comando deixou claro que o comando é dado para o oficial com melhor poder de decisão
- Eu deveria jogá-lo na corte marcial por desacato, Franco! – urra o coronel. – O que acha disso, hein?
- Para eu ser julgado por uma corte marcial, precisaria que o exército reconhecesse nossas atividades
- Isso... Abuse de sua sorte! – urra Almeida. – O senhor andou lendo os jornais ultimamente? O “Boom” meta-genético? Em muito pouco tempo não haverá mais necessidade de segredos... E você vai ser um soldado regular das forças armadas, e vai aprender da pior forma sobre hierarquia!
Os dois se encaram em silêncio.
- Terceira desobediência, não? – fala com tranqüilidade Rubens. – Como é que você não me expulsou ainda da força? Qualquer um já teria desmantelado esta operação.
- Não me tente, Rubens...
- Eu digo ao senhor porque não desmantelou. – fala enfim. – EU sou seu melhor e mais discreto agente. Sou um coringa quando a força não sabe mais onde atacar. Por isso o senhor não tem colhões de desmantelar esta operação. Senhor, permita-me ter colhões por nós dois. Eu estou fora.
Rubens joga a máscara e a identificação no chão, aos pés do coronel Almeida, e começa a caminhar para a rua.
- Sargento Franco... Rubens... – Fala o oficial roçado os dentes. – Não jogue fora seu futuro na força... Você tem um talento único! Não o desperdice!
Rubens dá com os ombros.
2008
“Uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco”.
Rubens Franco tinha o dom de ver falhas. Pontos fracos.
Estruturas.
Pessoas.
Técnicas de luta.
...
Instituições.
Sim, instituições também. “Sempre guarde um segredinho sujo. Não mostre todas as suas cartas de primeira”. Como falou o coronel Almeida.
Se Rubens Franco se apresentasse ao exército como meta-evoluído, seria ele quem precisava do exército. Sendo “descoberto”, era o Exército quem dependeria dele. O velho truque do mapa do tesouro: entregá-lo à vítima levanta suspeitas, mas enterrá-lo onde sua vítima está cavando provoca euforia, ganância e brios de vaidade. Se não fosse Almeida, seria qualquer outro oficial.
Rubens pode assumir posições de capitania e não mero executor de tarefas. Teve acesso a informações privilegiadas. Por anos montou secretamente laboratórios e oficinas em pontos estratégicos do país que o exército e a ABIN desconhece. Sabia como conseguir embarcar nos vôos militares como “carona”, e mesmo adquiriu seu próprio jato e veículo. Conhecia os pontos fortes e fracos. Teve seus primeiros contatos com super-humanos, e treinou à exaustão. Um plano elaborado por uma mente capaz de perceber instantaneamente quaisquer falhas.
Poderia se armar. Montar seu próprio arsenal. Sua clava, uma obra prima da engenharia subestimada por um observador regular - possuía 345 combinações de travamento para 74% dos casos. Poucos artistas marciais tinham chance contra ele numa luta.
Sim, a história do elo da corrente era o simbolismo que precisava.
Nenhum comentário:
Não é permitido fazer novos comentários.